Bartyra Ribeiro de Castro[1]
Em 1916, Sigmund Freud escreveu um artigo intitulado 'Alguns Tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Psicanalítico'[2], no qual afirma que a distinção fundamental entre o adulto e a criança está na renúncia ao prazer em favor da realidade. Partindo desta premissa, Freud descreveu três tipos básicos de caráter: os que se consideram "exceções", os "fracassados pelo êxito" e os "criminosos devido ao sentimento de culpa".
Sobre as "exceções" observa-se uma resistência à recusa do prazer pelo fato de a pessoa considerar que já renunciou o bastante e se achar no direito de ser poupado ou compensado, sendo-lhe absolutamente cabível uma providência especial.
A respeito dos "fracassados pelo êxito", o que ocorre é que a pessoa não consegue suportar sua felicidade e adoece.
E quanto aos "criminosos devido ao sentimento de culpa", Freud ressalta que alguns criminosos sustentam que o sentimento de culpa já se encontrava presente antes da ação criminosa propriamente dita (e não em decorrência desta). É claro que isso não quer dizer que não existam criminosos sem qualquer sentimento (menos ainda de culpa!).
Em um artigo sobre os complexos familiares[3], Jacques Lacan (1938) previu que o declínio do exercício da autoridade paterna se manifestaria, no futuro, por meio do crescimento na cultura de uma neurose baseada no sentimento de exceção.
Um artigo que busca articular as formulações de Freud e de Lacan[4] ressalta que a prática analítica colocada à disposição do tratamento às camadas populares; "têm constatado o avanço do tipo de caráter descrito como "exceção", isto é, o forte sentimento que encontramos em algumas pessoas, especialmente nas mulheres. Disso resulta uma posição subjetiva que as impede de se representarem como sujeitos de direitos e de deveres"[5]. A reivindicação de serem tratadas como exceção exclui a responsabilização pelos próprios atos e a conseqüente cumplicidade quanto ao desejo.
A realidade brasileira, com suas profundas desigualdades sociais, nos inquieta a este respeito. Nas classes menos favorecidas, "encontramos um modo de organização familiar regulada por uma hierarquia entre as gerações extremamente precária. Nestas famílias a renda total dificilmente ultrapassa a um salário mínimo mensal; o recurso aos benefícios assistenciais do Estado transforma-se em meio de vida e acréscimo à renda familiar; e os adultos geralmente não têm emprego fixo. Como eles se representam como 'carentes', não se vêem como sujeitos do pacto social com igualdade de direitos e de deveres com outros sujeitos"[6].
Os homens exibem sua precariedade em privar as mulheres de seu gozo ilimitado, mesmo em relação às suas crias. As relações sexuais comparecem como um elemento que testemunha a completa irresponsabilidade de homens e mulheres que procriam sem qualquer planejamento e numa situação de extrema precariedade material e simbólica.
"A miséria econômica e psíquica transmite uma maneira de viver 'segundo a vontade de Deus'"[7]. Estas pessoas que se colocam enquanto "dependentes da providência divina ou da assistência do Estado, não se responsabilizam pelas suas escolhas, e menos ainda pelas inevitáveis conseqüências. Aguardam um privilégio vindo dos céus que as compense da vida miserável na qual foram jogadas (segundo pensam) pelo destino"[8].
O discurso autopiedoso dá voz a um masoquismo generalizado. E esta é uma das inúmeras pragas que devemos nos empenhar em combater, uma vez que se alastra no discurso religioso e populista, conforme temos testemunhado.
[1] Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise/Associação Mundial de Psicanálise.
[2] FREUD, S., 1974, Vol. XIV (1916) ESB
[3] LACAN, J. (1938) Les complexes familiaux dans la formation de l’individu, In: Autres Écrits, aux Editions du Seuil, Paris, 2003, pags. 23-84.
[4] COELHO DOS SANTOS, T.E AZEREDO, F.A., Um tipo excepcional de caráter, in: Psyché: Revista de Psicanálise, UNIMARCO, SP (no prelo)
[5] COELHO DOS SANTOS, T e CASTRO, B., 'O Tratamento das exceções'. Trabalho apresentado no II Encontro Americano do Campo Freudiano. Buenos Aires. Agosto, 2005
[6] idem
[7] idem
[8] idem
Em 1916, Sigmund Freud escreveu um artigo intitulado 'Alguns Tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Psicanalítico'[2], no qual afirma que a distinção fundamental entre o adulto e a criança está na renúncia ao prazer em favor da realidade. Partindo desta premissa, Freud descreveu três tipos básicos de caráter: os que se consideram "exceções", os "fracassados pelo êxito" e os "criminosos devido ao sentimento de culpa".
Sobre as "exceções" observa-se uma resistência à recusa do prazer pelo fato de a pessoa considerar que já renunciou o bastante e se achar no direito de ser poupado ou compensado, sendo-lhe absolutamente cabível uma providência especial.
A respeito dos "fracassados pelo êxito", o que ocorre é que a pessoa não consegue suportar sua felicidade e adoece.
E quanto aos "criminosos devido ao sentimento de culpa", Freud ressalta que alguns criminosos sustentam que o sentimento de culpa já se encontrava presente antes da ação criminosa propriamente dita (e não em decorrência desta). É claro que isso não quer dizer que não existam criminosos sem qualquer sentimento (menos ainda de culpa!).
Em um artigo sobre os complexos familiares[3], Jacques Lacan (1938) previu que o declínio do exercício da autoridade paterna se manifestaria, no futuro, por meio do crescimento na cultura de uma neurose baseada no sentimento de exceção.
Um artigo que busca articular as formulações de Freud e de Lacan[4] ressalta que a prática analítica colocada à disposição do tratamento às camadas populares; "têm constatado o avanço do tipo de caráter descrito como "exceção", isto é, o forte sentimento que encontramos em algumas pessoas, especialmente nas mulheres. Disso resulta uma posição subjetiva que as impede de se representarem como sujeitos de direitos e de deveres"[5]. A reivindicação de serem tratadas como exceção exclui a responsabilização pelos próprios atos e a conseqüente cumplicidade quanto ao desejo.
A realidade brasileira, com suas profundas desigualdades sociais, nos inquieta a este respeito. Nas classes menos favorecidas, "encontramos um modo de organização familiar regulada por uma hierarquia entre as gerações extremamente precária. Nestas famílias a renda total dificilmente ultrapassa a um salário mínimo mensal; o recurso aos benefícios assistenciais do Estado transforma-se em meio de vida e acréscimo à renda familiar; e os adultos geralmente não têm emprego fixo. Como eles se representam como 'carentes', não se vêem como sujeitos do pacto social com igualdade de direitos e de deveres com outros sujeitos"[6].
Os homens exibem sua precariedade em privar as mulheres de seu gozo ilimitado, mesmo em relação às suas crias. As relações sexuais comparecem como um elemento que testemunha a completa irresponsabilidade de homens e mulheres que procriam sem qualquer planejamento e numa situação de extrema precariedade material e simbólica.
"A miséria econômica e psíquica transmite uma maneira de viver 'segundo a vontade de Deus'"[7]. Estas pessoas que se colocam enquanto "dependentes da providência divina ou da assistência do Estado, não se responsabilizam pelas suas escolhas, e menos ainda pelas inevitáveis conseqüências. Aguardam um privilégio vindo dos céus que as compense da vida miserável na qual foram jogadas (segundo pensam) pelo destino"[8].
O discurso autopiedoso dá voz a um masoquismo generalizado. E esta é uma das inúmeras pragas que devemos nos empenhar em combater, uma vez que se alastra no discurso religioso e populista, conforme temos testemunhado.
[1] Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise/Associação Mundial de Psicanálise.
[2] FREUD, S., 1974, Vol. XIV (1916) ESB
[3] LACAN, J. (1938) Les complexes familiaux dans la formation de l’individu, In: Autres Écrits, aux Editions du Seuil, Paris, 2003, pags. 23-84.
[4] COELHO DOS SANTOS, T.E AZEREDO, F.A., Um tipo excepcional de caráter, in: Psyché: Revista de Psicanálise, UNIMARCO, SP (no prelo)
[5] COELHO DOS SANTOS, T e CASTRO, B., 'O Tratamento das exceções'. Trabalho apresentado no II Encontro Americano do Campo Freudiano. Buenos Aires. Agosto, 2005
[6] idem
[7] idem
[8] idem
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