segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

PSICOSE E LAÇO SOCIAL NA CONTEMPORANEIDADE [1]

Bartyra Ribeiro de Castro[2]

O estudo clínico das psicoses começou com a psiquiatria e recebeu de Kraepelin a organização classificatória que valeu por longa data como parâmetro diagnóstico aos males psiquiátricos. É bem verdade que o DSM IV tem enquadrado a clínica psiquiátrica atual numa planilha de avaliação cognitivo-comportamental, enquanto a genética psiquiátrica não encontra um ponto de acordo possível com os estudos epidemiológicos da Organização Mundial da Saúde. Em meio a estas controvérsias os laboratórios farmacêuticos ampliam o leque de variações sobre o mesmo tema: os psicotrópicos. Todavia ainda existem psiquiatras que se pautam pela escuta ao paciente. É a eles que recorremos sempre que precisamos que nos auxiliem na clínica psicanalítica de hoje.

Sigmund Freud, contemporâneo de Kraepelin, partiu desta classificação e propôs uma forma simplificada para o diagnóstico das neuroses: obsessiva, histérica e fóbica; mas, quanto às psicoses, manteve a divisão kraepeliniana: de um lado, paranóia e esquizofrenia; e de outro, mania e melancolia[3]. No que diz respeito às perversões, Freud partiu do contraponto pulsional ativo-passivo para pensar sobre o sadismo e o masoquismo.

Freud brindou a clínica psicanalítica com o relato de três casos paradigmáticos: O Caso Dora (Histeria), O Homem dos Ratos (Neurose Obsessiva) e O Pequeno Hans (Fobia). Entretanto, foi com o caso de Sérgei Pankeieff (O Homem dos Lobos) que Freud, tendo considerado um caso muito complexo, jamais deixou de se questionar sobre a aplicabilidade do método psicanalítico ao tratamento das psicoses.

O estudo clínico de um caso de paranóia trazido a Freud pelo relato autobiográfico de Daniel Paul Schreber possibilitou o desenvolvimento da diferença entre a realidade psíquica na neurose e na psicose, estabelecendo a partir daí toda a teoria psicanalítica sobre esta modalidade clínica. Na realidade, Freud jamais conheceu Schreber, mas a precisão de seu testemunho escrito em forma de dossiê jurídico lhe valeu como baliza fundamental para seu argumento a respeito de uma forma própria de estruturação psíquica na psicose.

Freud se preocupou em descrever minuciosamente o funcionamento do aparelho psíquico, pois queria que a psicanálise tivesse o crédito de ser uma ciência. Para além do funcionamento psíquico de cada sujeito, a psicanálise sempre fez uma articulação entre a estrutura e o singular de cada caso. Os casos clássicos descritos por Freud compõem a formação permanente do psicanalista que se orienta pelo princípio de que, enquanto destinatário do discurso angustiado do humano deve saber que a relação do sujeito com o Outro da cultura.

Como Freud pensava a clínica pelo viés da neurose, em seu artigo O Esboço de Psicanálise[4] ele nos aconselha algumas precauções a serem tomadas: não nos atermos demasiadamente aos casos de psicose, ocupar-nos cuidadosamente das personalidades narcísicas, atentar-nos para as neuroses atuais, e, sobretudo, refazemos nossa própria análise a cada cinco anos[5].

Foi Jacques Lacan, após alguns anos de divergências entre as correntes psicanalíticas pós-freudianas quanto a conceito de inconsciente e ao método de abordá-lo e tratá-lo; quem pôs fim à torrente interpretativa vigente, ao tomar o texto freudiano a respeito da pulsão de morte (Além do Princípio do Prazer[6]) e propor uma releitura de toda a obra de Freud considerando como central, este conceito. Lacan se utilizou das ferramentas pertinentes à sua época que não estavam ao alcance de Freud na dele.

Ele partiu do inconsciente conforme pensou Freud, regido pelo princípio do prazer (processo primário – deslocamento e da condensação), e formulou que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, utilizando-se da lingüística de Saussure. Até 1969, para Lacan, o inconsciente funcionava sob as leis da linguagem (metáfora e metonímia) e, como tal, sempre sujeitas ao mal-entendido. Esta estrutura não possibilitava um rigor diagnóstico, o que fez com que o próprio Lacan considerasse na época, que somente a psiquiatria poderia responder por um sistema nosográfico sólido.

A partir do estruturalismo de sua época, Lacan refinou critérios diagnósticos que permitiriam uma maior precisão no trato de seus pacientes. Lacan tomou o texto freudiano sobre O Homem dos Lobos, pinçou o que ele descreveu como próprio à psicose a respeito de Schreber, e elevou à condição de conceito. Desta forma, a Verwerfung freudiana tomou caráter de foraclusão, correspondendo a uma forma singular de funcionamento do recalque na estrutura psicótica. O termo 'foraclusão' foi extraído do vocabulário jurídico francês, e diz respeito à "perda de um direito não exercido no intervalo prescrito"[7].

O valor do diagnóstico na clínica

Enquanto Freud fundou a psicanálise a partir da neurose histérica, Lacan tomou a pulsão de morte e a psicose como seu ponto de partida para dar um passo adiante, trazendo para as estruturas clínicas uma irreversibilidade e uma irredutibilidade que conferem solidez à diferença diagnóstica entre neurose, psicose e perversão.

Em seu escrito De uma questão preliminar a todo tratamento possível das psicoses[8], Lacan, ao formalizar novos parâmetros para a questão da transferência, diz que sim, o psicótico faz transferência, embora não da mesma forma que o sujeito neurótico. Lacan, neste escrito, estabelece um novo paradigma de tratamento possível. Ele nos lembra que aonde o neurótico coloca a suposição de saber e a crença no Outro, o psicótico coloca a certeza do saber e a suspeita do outro.

Esta formulação de Lacan abre definitivamente a clínica psicanalítica às psicoses, dizendo que não se deve recuar diante delas, embora não caiba ao psicanalista fomentar seu desencadeamento. Daí, o termo 'descontinuísta' usado para designar a clínica proposta por Lacan no primeiro momento de seu ensino a propósito da psicose. Uma clínica que se baseia na diferença entre psicose e neurose.

Na clínica cotidiana, não dispensamos os diagnósticos estruturais como balizamentos de direção de tratamento. Não podemos tratar um sujeito psicótico com o mesmo manejo que fazemos quando de uma neurose. Um erro diagnóstico pode ser desastroso e comprometer todo um tratamento. Ter um diagnóstico preciso nos permite melhores condições de traçar uma estratégia de tratamento mais eficaz.

A estruturação da realidade psíquica de um psicótico tem como conseqüência uma deformação da realidade. Assim toda a vida deste sujeito está comprometida, inclusive seus vínculos e o modo de se posicionar no mundo.

A "Grande Neurose Moderna"[9]

Em 1938, num texto intitulado Complexos Familiares[10] Lacan profetiza a respeito da "grande neurose moderna" enquanto uma neurose de caráter. Lacan coloca que, de acordo com a trama dos laços familiares constatados na época, a autoridade paterna tendia a ser mais que questionada; destituída, enfraquecida no seu poder decisório. Esta espécie de 'profecia lacaniana' apontava para uma tendência na sociedade da queda dos ideais coletivos que redundaria na valorização exacerbada do narcisismo individual.

Na verdade, vem da Revolução francesa, com seus ideais de universalidade dos direitos do Homem; a quebra da diferença sexual e da hierarquia geracional como algumas de suas conseqüências sobre a cultura moderna. O individualismo e o narcisismo como valores a serem exaltados também remontam daí.

Lacan, sempre muito prudente em suas formulações, trouxe-nos a importância de nos servirmos do pai, não para devorá-lo na tentativa de destruí-lo, ou cortar-lhe a cabeça, mas para fazermos uso de suas funções.

Lacan sabia da importância da família na estruturação psíquica de um sujeito. Se no início de seu ensino ele toma o pai como metáfora em seus últimos ensinamentos sublinha a necessidade do pai vivo e encarnado e o inconsciente dependente do mal-entendido entre os sexos[11]. Em uma de suas últimas formulações sobre o pai, ele diz que um pai tem direito ao amor e ao respeito quando ensina a seus filhos o valor da escolha de uma mulher para si[12]. Ao poder escolher uma mulher e lhe dar filhos, este homem ensina aos seus próprios filhos homens sua forma particular de desejar uma mulher; e às suas filhas mulheres a possibilidade de serem amadas por um homem[13].

Quando um pai, enquanto homem, não pode se autorizar a dizer 'esta mulher é minha', ele franqueia a relação incestuosa entre mãe e filho. Se a mãe não é privada de seu deleite, da tentativa de reintegrar sua cria, o filho cai num funcionamento narcísico, autoerótico, e prisioneiro de seu mundo infantil.

Cabe esclarecer que quando se dispensa o pai, os filhos tendem a ficar desorientados. O pai, a função do pai na organização da sociedade é exatamente a de garantir a transmissão dos ideais coletivos que receberam de herança dos seus antecessores; do respeito ao semelhante e da importância da hierarquia entre as gerações e da diferença sexual.

O humano necessita do trauma para tornar-se um sujeito. O trauma para a psicanálise é o encontro como sexual[14]. O caráter inegável da diferença exige uma interpretação que posicione o sujeito quanto à sua própria sexualidade e seus efeitos de escolha de objetos de desejo e de gozo.

O declínio progressivo da função paterna[15] e a inconsistência de seu discurso dificultam o sujeito a se estabelecer no mundo, a participar do coletivo, a fazer escolhas sexuais e amorosas que sejam sustentáveis, a separar-se da mãe, e a se posicionar de forma independente. Este modo de funcionamento narcísico é considerado um modo de funcionamento psicótico.

A cultura contemporânea, regida pelo individualismo favorece um modo de enlaçamento no qual o sujeito se endereça precariamente ao outro para traçar as linhas da coletividade e as regras do convívio social. É neste sentido que se diz que a psicose está generalizada. Quando o modo de funcionamento da cultura se demonstra desta forma, fica mais difícil o diagnóstico estrutural. Surgem os fenômenos graves como as doenças da mentalidade, as inibições, as compulsões, as depressões, as anorexias e as bulimias - que podem ser tanto conversões histéricas como psicóticas. Estes quadros, apesar de serem gravíssimos, não se definem por si só como critério diagnóstico. É preciso que façamos um trabalho de escuta bem fina para separar as estruturas e calcular uma direção do tratamento.

Questiona-se se as psicoses atuais são menos delirantes ou se a sociedade se acostumou à generalização do delírio, visto que está organizada como se tudo fosse permitido, como se tudo fosse possível. Diante disto, fica especialmente difícil um diagnóstico preciso quanto a uma neurose ou uma psicose sem desencadeamento – as chamadas psicoses ordinárias.

Quando a sociedade permite que os pais se desresponsabilizem pelos lugares de autoridade o que tem como resultado é a corrosão do valor da proibição enquanto base da formulação do desejo pelos filhos.

Uma nota sobre o Brasil

A sociedade brasileira convive diariamente com a falência do pátrio poder numa cultura do consumo desenfreado de objetos, drogas e afetos; e do amor livre, irresponsável e inconseqüente. Basta uma observação mais cuidadosa da forma com que as pessoas se enlaçam, procriam e se desenlaçam (aqui, a ordem não é necessariamente sempre esta!)

A violência deixou a esfera pública para comparecer de forma assustadora e desenfreada na esfera privada. No ninho sem pai e sem ordem, aonde a mãe desfruta das mais diversas formas de gozar também sem lei; a vida vale quase nada e a força bruta oferece melhores soluções aos impasses apresentados pelas impossibilidades que surgem pelo fato de se viver numa sociedade cheia de restrições reais, ao mesmo tempo em que a mídia promove o mais recente supérfluo absolutamente fundamental. Este "apelo frenético ao novo"[16] não engendra a história, ao mesmo tempo em que a invalida e a desconsidera.

Na clínica cotidiana testemunhamos os efeitos da imensa permissividade dos pais e da enorme dificuldade em privarem seus filhos e a si mesmos. A compulsão aos gastos abusivos, o desrespeito à diferença trazida pelo seu semelhante, e os excessos com os quais revelam a própria falta de limites, denunciam que o declínio da função paterna já se apresentava desde a sua geração. Somos fruto e vocês, filhos e netos do paradigma de 68, que comemora neste maio, 40 anos: "É proibido proibir!"

Lacan considerava que "a ausência do pai na família era um terreno favorável à eclosão de uma psicose"[17], porque quando os filhos ficam entregues somente às mães, quando são privados do encaminhamento do pai, ficam sem orientação quanto à direção a tomarem no mundo e na cultura. Fica literalmente difícil 'sairem de casa'.

Estes filhos entregues somente às mães apresentam uma dificuldade de pensarem de forma lógica, de calcularem as conseqüências de seus atos e de traduzirem suas angústias em palavras que as contornem. Temos assistido os jovens transformarem em atos violentos seus sentimentos de impotência.

Como a psicanálise pode contribuir

Na sociedade do excesso, os sujeitos entorpecidos pelos seus sentimentos e pobres de palavras recorrem freqüentemente à medicação como barreira de contenção ao seu mal-estar.

A difusão dos medicamentos e a prescrição abusiva de antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos tendem a medicalizar a angústia humana e os fenômenos sociais, sem considerarem atentamente o quadro clínico e a subjetividade. Numa espécie de "cosmética psiquiátrica"[18], propõem uma maquiagem química às 'imperfeições' da estrutura psíquica. A falta de critérios rigorosos de diagnóstico clínico psiquiátrico compromete a diferenciação fundamental entre as modalidades de sofrimento humano.

Hoje testemunhamos a devastação que chega ao universo infantil, quando constatamos que mais e mais crianças, cada vez mais cedo, são medicadas com ritalina ou outras drogas, quando bastaria, em outros tempos, o eficaz exercício da autoridade paterna.

Não podemos imaginar que as soluções para o mal-estar na nossa cultura possam ser encontradas nas prateleiras dos shoppings centers, nas drogas ilícitas ou não; ou na explosão dos atos violentos. Não há qualquer possibilidade de existência humana sem angústia.

A valoração dos lugares de autoridade pode servir positivamente como contenção à destrutividade humana. A pulsão de morte de tal modo vigora solta em nossos dias que os quadros trazidos por nossos pacientes, muitas vezes, nos embaraçam quanto ao diagnóstico que deve fazer valer a relação entre as diferentes estruturas e as particularidades de um sujeito.

Ao final de seu ensino, Lacan propôs uma clínica própria aos tempos pós-modernos aonde a desorientação promulga a descrença geral e a proliferação, tanto das pseudo-ciências quanto das mais criativas formas de religiosidade. A nova forma de clinicar em psicanálise exige que o psicanalista se coloque além da interpretação do inconsciente. Que ele se proponha "enquanto aquele que presentifique o real"[19] e que possibilite ao sujeito se responsabilizar pelo seu modo singular de gozar e suas conseqüência, inventando novas parcerias, novos sintomas e novas formas de laço social. O psicanalista na clínica atual é convocado a dar corpo real às proibições necessárias para que um sujeito não caminhe na direção do pior para si e para a sociedade na qual ele se insere.


Vitória, 18 de maio de 2008.

Referências Bibliográficas:

Coelho dos Santos (2001) Quem precisa de análise hoje? – O discurso analítico: novos sintomas e novos laços sociais. RJ: Bertrand Brasil.
_________.(2005). “A prática lacaniana na civilização sem bússola”. Em: Coelho dos Santos, T. (org.) (2005). Efeitos terapêuticos na psicanálise aplicada. RJ: Contracapa, p. 61-92.
------------(2006). Sinthoma: corpo e laço social. RJ: Sephora/UFRJ, 2006
Freitas, R A (2006) “A perda precoce em casos de abandono ou morte dos pais” In: asephallus Ano 2 n° 3 Revista digital do Núcleo Sephora de Pesquisas sobre o moderno e o contemporâneo, www.nucleosephora.com/asephallus
Freud, S (1977) Obras Completas. RJ: Imago Ed.
--------- (1892) “Esboços para a ‘Comunicação Preliminar’ de 1893”. Vol.I
----------(1920) “Além do princípio do prazer”. Vol. XVIII.
Lacan, J. (1938/1987) Os complexos familiares na formação do indivíduo – ensaio de uma função em psicologia. RJ: Jorge Zhar Ed.
_________. (1974-75). O Seminário, livro 22: RSI. Inédito.

Lacan, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível das psicoses. Escritos. Zahar Editora.
Laurent, E. Há algo de novo nas psicoses. Revista CURINGA, nº 14. Minas Gerais. Abril de 2000, p.152.



[1] Palestra proferida na Universidade de Vila Velha (UVV) em 19 de maio de 2008.
[2] Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise / Associação Mundial de Psicanálise.
[3] Laurent,E. Há algo de novo nas psicoses. Revista CURINGA, nº 14. Minas Gerais. Abril de 2000, p.152.
[4] Freud, S. Standard Edition, volume ???
[5] Laurent, E. Há algo de novo nas psicoses. Revista CURINGA, nº 14. Minas Gerais. Abril de 2000, p.155.
[6] Freud, S. Standard Edition, volume ???
[7] Coelho dos Santos, T. Uma nova questão preliminar. (???)
[8] Lacan, J. Escritos, Zahar Editora, p.???
[9] Laurent, E. Há algo de novo nas psicoses. Revista CURINGA, nº 14. Minas Gerais. Abril de 2000, p.157.
[10] Lacan, J. Outros Escritos, Zahar Editora, p.???
[11] Coelho dos Santos
[12] Lacan, J. Seminário RSI, 21 de janeiro.
[13] Freitas, R A “perda precoce
[14] Freud
[15] Coelho dos Santos, T. Uma nova questão preliminar. (???)
[16] Laurent, E. Há algo de novo nas psicoses. Revista CURINGA, nº 14. Minas Gerais. Abril de 2000, p.152.
[17] Coelho dos Santos, T. Uma nova questão preliminar. (???)
[18] Laurent, E. ????
[19] Coelho dos Santos, T. Sintomas, discursos e laços sociais. In ???

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